Não é fácil fazer de uma casa a nossa casa. Mas quando chegaste a casa já era tua. Foste fazendo teus os espaços vazios. E havia muitos, na casa, no quarto, em mim. Ocupaste a cidade e os arredores, deste-lhe vida, trouxeste-lhe sangue. A casa encheu-se, a casa esvaziou-se. De ti, de mim, de sentido. O corredor está vazio da possibilidade de o percorreres; a cozinha está vazia dos elogios à minha comida; a casa de banho vazia do cheiro do teu perfume, dos teus cabelos perdidos; a varanda vazia dos teus cigarros, feitos unidades de tempo, vazia de um frio agradável, quase de primavera; e o meu quarto vazio do teu calor sem estação definida. Ficou um espaço vazio, um lado da cama que te pertence e que sei que não vais reclamar. Esta casa nunca foi tão minha como quando foi tua, e agora não sei de quem é. Escrevo estas linhas como se estivesse longe, muito longe de um lar. Sou um exilado. Sou um exilado na minha própria casa.
Talvez por isso tenha recebido de ti, aqui no exílio onde me encontro, uma chave da casa de praia. Espero que esta casa seja por aí algures na orla do mediterrâneo. Gosto de praia e de cheiro a maresia. Mas prefiro o cheiro a calor do lar, essa nostalgia absoluta do exílio de onde nunca saí. Diz-me que estás na casa da praia. Porque o teu abraço é como voltar a casa, como voltar a casa depois do exílio. E não há casa sem ti.