segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
The Way Young Adults Do.
Os adultos fazem programas, combinam jantares, com sítios certos a horas certas ou às meias horas. Falam por telefone, às vezes, ou por mail, ou assim. Avariam-se-lhes os carros. Batem com eles em estacionamentos por distracção. Levam os carros a arranjar e gastam mais ou menos dinheiro nisso. Usam óculos e vão a consultas de oftalmologia. Têm doenças crónicas e vão às consultas de rotina. Têm uma renda ou uma prestação. Têm à cabeceira livros que nem sempre lêem. Têm na cabeça o título de um filme que depois não vão ver. Vão ao portal das finanças e tratam de burocracias que parecem nunca ter fim. E depois pagam os seus impostos. Trabalham às vezes à noite. Têm famílias. Têm amigos. Namorados ou namoradas, maridos ou mulheres. Têm amantes. Alguns até têm filhos, e os que não têm até queriam ter. Têm objectivos, algumas vezes atingidos, e depois novos objectivos. Têm projectos. Têm sonhos, quase sempre adiados. Em alguns casos, projectos de vida. Vivem em Lisboa e depois vivem em Cascais e depois vivem sabe-se lá onde. Tratam de assuntos relacionados com isso. Alguns têm menos sorte e moram em Sacavém. Têm noites mal dormidas. Tomam decisões. Têm dúvidas, antes e depois. Têm esperança num presente ameno e num futuro melhor. Sabem que as decisões só mais tarde se revelarão fracassos ou a melhor coisa que lhes podia ter acontecido. Têm problemas que não confessam. Têm responsabilidades. Têm obrigações. Têm insónias ou então dificuldades em sair da cama todas as manhãs. Têm que suportar invernos mais ou menos rigorosos e muitas vezes têm que ir a uma loja de um centro comercial à procura de um casaco mais quente. Também gastam dinheiro nisso. Têm pouco tempo, mas também alguma inércia. Têm televisões acesas quando chegam a casa. Têm tvcabo, meo, zon e duzentos canais à escolha. Têm, Hollywood, Fox, AXN. Sete Palmos de Terra, How I Met Your Mother, Rockefeller 30, Anatomia de Grey, Friends e outras séries sobre jovens adultos. Computadores. Telemóveis. SMS. Google chat. Messenger. Skype, Facebook, Tweeter, blogs e redes sociais que nunca mais acabam. Têm amores geograficamente longínquos, emocionalmente incertos. Têm moradas fiscais e contas para pagar. Têm imprevistos. Têm contratempos. Alguns têm psicólogos ou psiquiatras para os ajudar a lidar com tudo o que têm. Têm amigos, que por sua vez também são adultos, que por sua vez também têm isto tudo, ou parecido. Não se vêm durante semanas ou meses. Têm tantas coisas que descombinam programas, desmarcam jantares.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Vão para o caralho vocês e os vossos tamborzinhos.
Francisco Lopes, por ventura uma das únicas pessoas praticamente incógnitas depois de terem ido à televisão, resolveu dar-se a conhecer na Rua Morais Soares. Há que louvar o esforço e até congratular o mérito. Reunindo qualquer coisa como uma vintena de militantes (e algumas viaturas) com disponibilidade, alguns com dotes para a música ou simplesmente com vontade de dar uso às cordas vocais, desceram a rua animadamente, com algum alvoroço. Sabe quem conhece, que uma acção de rua deste género, nesta rua particular, podia ter corrido mal, podia ter sido um absoluto fracasso, uma vez que o bulício quotidiano das seis da tarde podia ter engolido estes cidadãos empenhados e socialmente comprometidos. Mas não, a caravana irrompeu na vida da Morais Soares, colocando-se num patamar acima dos acontecimentos quotidianos. No ruído, no movimento, no caos. Os camaradas (chamemos-lhes assim para não dizer partidários) lograram esse feito só ao alcance de obstinados militantes de um partido que se mantém firme nas suas convicções, como por exemplo, de que não existe nada de errado com a democracia da Coreia do Norte. Só estas louváveis qualidades levaram a que as carrinhas do partido, pagas pelos contribuintes, dificultasse a vida dos contribuintes mais do que noutro dia qualquer. Só estas qualidades fizeram que os transeuntes, que normalmente se amontoam e se atropelam pelos estreitos passeios de calçada portuguesa transitassem pelas bem mais largas e recentemente asfaltadas faixas de rodagem, dado o ritmo pachorrento com que os camaradas desciam a rua. Vi buzinadelas, vi insultos, vi gente à janela. Parece-me que o objectivo foi cumprido e a reacção bastante animadora.
Analisar o facto de que na era dos media, seja lá o que isso for, um partido político consiga ter mais impacto numa arruada do que em meia dúzia de aparições em debates e entrevistas na televisão excede as minhas capacidades de comentador. Suspeito que isso seja meio desadequado para uma campanha em 2011, mas isso sou eu dizer.
Compreendo que o conteúdo de interesse que se pode apresentar na televisão é confrangedoramente pouco. Contudo, uma arruada na Morais Soares às seis da tarde com uma banda improvisada com uns sopros e uns bombos a tocar a mesma melodia ao longo da rua toda em ritmo animadote também não apresenta grande conteúdo político e ideológico e isso. Digo eu.
Claro que estou mal disposto. É que esta brincadeira, à conta da ideologia, das convicções, das presidenciais e do caralho, do erário público e de muito, mas mesmo muito mau gosto, despertou-me da sesta.
O comunismo popularucho dos djambés, dos freaks, dos idealistas e reformados é patético e mete nojo. Onde está a temível máquina de propaganda e o irresistível projecto estético de sedução para uma ideologia? Preferia.
Também preferia as janeiras, se bem que isso é demasiado católico para os camaradas.
Agora isto
é que
não!
Vão para o caralho vocês e os vossos tamborzinhos.

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