domingo, 27 de dezembro de 2009

Albino Red Blues (ou os blues das personagens secundárias).

passo uma parte do meu tempo a pensar em pormenores sem importância nenhuma. detenho-me em coisas em que mais ninguém repara. não porque sou um iluminado mas somente porque elas não têm nenhuma relevância. e foi por esse motivo que perdi umas horas da noite passada à procura de uma coisa que, provavelmente, nem existe. ou, pelo menos, não existe comercialmente. e se não existe comercialmente tem uma existência muito circunscrita. mas isso é outra história.
empreguei duas horas da noite de sábado a rever o filme que o Clint Eastwood fez sobre a vida de Charlie Parker. não o revi porque tenha gostado muito da primeira vez, revi por um só momento. um único.
numa digressão pelo sul profundo dos EUA, numa altura em que as bandas mistas eram mal vistas, Charlie Parker incluiu na sua banda um trompetista branco, judeu. Red Rodney foi, para essa digressão, rebaptizado de Albino Red, passando por albino para poder tocar. e, contra a sua vontade, cantar.
é este momento do filme que é para mim inesquecível. quando Albino Red começa a cantar, com uma voz sofrível, uma letra pouco compreensível.

everybody
…all down…….
…everybody…
…is…. all down…
….don’t… mess up… baby….
cause I’ll have to…..
I’ll have to shoot you down….
….took up my money….

…down, down, down…..

foi neste homem, músico secundário, personagem secundário no biopic do grande génio, que eu encontrei motivo para rever o filme (já não é a primeira vez que escrevo sobre personagens secundários músicos). esta história, de um judeu trompetista que passa por albino para tocar com o quinteto de Charlie Parker é, por si só, extraordinária. e depois há a canção. foi à procura desta canção, cantada com uma pobre voz e péssima dicção, que roubei algumas horas à minha noite. sem êxito.
penso que se chama Albino Red Blues e que foi gravada especialmente para o filme. contudo não consta da banda sonora oficial e, aparte algumas referências esporádicas, não mostra muitos sinais de vida na Web.

talvez escreva ao Clint Eastwood e lhe peça uma cópia do resto da banda sonora.
é que, para mim, não existem assim tantas canções tão boas como esta.


profiteroles.

profiteroles são cavacas. com um nome fino, chocolate e chantilly.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

ainda tenho coração.

1)calhou ser no dia do solstício de inverno que me despedi da menina com os abraços mais doces que já conheci. e foi no dia do solstício de inverno que ela viajou para um país, para uma cidade onde o frio é uma coisa estranha. deixou-me uns cabides, bem bonitos, de madeira, uma biografia bem extensa, um colchão insuflável, uma coisa que devia ter ficado em Madrid mas que não encontrou o dono certo e fita cola colorida. deixou-me o frio e estes dias pequenos e mesquinhos.

2)dei por mim, durante uma entrevista, a explicar a um técnico (de electricidade) as maravilhas de escrever e os benefícios da escrita para a saúde mental. "sabe, eu sou um técnico, não nasci para a escrever", disse-me. disse-lhe que eu mesmo tenho alma de técnico e contei-lhe do meu desgosto em não ser um técnico qualificado numa determinada área, do meu gosto em cumprir procedimentos técnicos, e do quanto gosto de fazer serigrafia. assegurei-lhe que não existe nenhuma incompatibilidade entre ser um técnico e escrever um texto, seja ele um romance, uma crónica de jornal, um desabafo (como este) num blog qualquer ou a biografia para o processo RVCC. parece mentira, mas consegui convencê-lo. e, se calhar, a mim também.

3)e, ali mesmo, pensei que, se calhar está na hora de cuidar da minha saúde mental e recomeçar a escrever, mesmo que sejam patetices. se começo a escrever no dia mais pequeno do ano, também começo a escrever no dia que é, de certa forma, o mais triste do ano mas a partir do qual tudo só pode melhorar.

4)depois o telefone tocou e eu desliguei. mas tocou outra vez. era ela, a menina dos abraços mais doces que eu conheci, e eu, porque era ela, pedi desculpa e atendi. não podia perder uma despedida. não à francesa. à portuguesa. "olá bia, não posso falar, eu já te ligo".

5)a minha vida mudou muito no último ano. quase sempre para melhor e a minha previsão/profecia de que 2009 ia ser o melhor anos das nossas vidas, mesmo que um pouco exagerada, acabou por ter algum sentido. arranjei um trabalho, depois arranjei coragem, saí de casa e fui morar sozinho. e ainda troquei o primeiro trabalho por outro melhor, mais interessante e mais bem pago. assim, à primeira vista, foi um ano do caralho.

6)entrei, desde há uns tempos atrás, numa deriva pragmática. esta história de trabalhar e ganhar dinheiro e ter uma casa própria e despesas e assuntos com a segurança social e finanças e chefes e rendas e agendas e o salário que não cai no fim do mês e outras merdas assim também tiveram alguma importância. mas, no fundo, não sei se isso chega para explicar este pragmatismo em vias de desenvolvimento. uma sucessão de coisas que correram mal levam-me frequentemente a pensar que mantenho o mundo a dois metros de distância mínima.

7)e quando eu quis que o mundo chegasse dois metros mais perto nos abraços mais doces que eu conheci, o mundo mudou de hemisfério. faltou dar-me a morada do outro hemisfério onde eu disse que não ia bater à porta. faltou fazer muitas coisas neste hemisfério. faltou ir a Cacilhas, ao Ginjal, a Casais de Monte Bom. faltou tempo. faltou qualquer coisa. talvez mais importante, que não tem a ver com o tempo nem com nada.

9)tudo o que ficou está em cima da cama.

10)é preciso arrumar tudo o que ficou. porque o que não ficou arrumar-se-á de algum modo.

11) - tem graça.
- o quê?
- quer dizer, não é propriamente engraçado. é curioso que vás embora no dia mais pequeno do ano.
- é. já acabou.
- o quê?
- o dia.

12) sim, já acabou.




0) não acabou porque os dias crescem a partir de agora.
não
acabou
porque
eu ainda tenho coração.