quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Simona: ou você vai ser alguém ou vai morrer crioulo mesmo.

Wilson Simonal nasceu pobre no Rio de Janeiro há muito, muito tempo. Quando tinha uns 20 anos, ou assim, começou nos bares cariocas, lá por inícios da década de 60, o que foi uma carreira fulgurante de cantor, explorando uma magnífica voz e um instinto musical apurado. Em pouco tempo tornou-se, a par de Roberto Carlos, na figura maior da música popular brasileira. Em cerca de dez anos gravou discos, encheu estádios, cantou com Sarah Vaughan ou Elis Regina, entusiasmou plateias, no Brasil e no estrangeiro, fez programas de televisão, apareceu em revistas, foi actor em filmes, deu a sua imagem a campanhas de publicidade, acompanhou a selecção brasileira como cantor oficial e quase como mascote no mundial de 1970. Foi, além do mais, o primeiro negro a ter tal nível de sucesso no Brasil e foi idolatrado e amado pelas audiências e, até certo ponto, o ponto em que o sucesso foi completamente esmagador, respeitado pela crítica especializada. Mas ainda mais rápida que a sua ascensão foi a sua queda, numa história pouco clara em que nem o próprio Simonal parece estar isento de culpa. Wilson Simonal, pelo modo como entretinha as massas, pela sua popularidade, pela sua falta de consciência política e, sobretudo, pela sua versão de Pátria Tropical, um hino ao seu país, começou a ser conotado com a ditadura militar que entretanto tinha tomado o poder. Em 1971, uma história estranha de um alegado desfalque nas contas de Simonal por parte de um contabilista em que este foi depois agredido, a mando de Simonal, por elementos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), a polícia política do regime militar, deu origem a uma acusação de colaboração com o SNI (serviço nacional de informação). Wilson Simonal seria informador e delator de opositores ao regime pertencentes à classe musical e artística. Uma não menos estranha confissão pública acelerou a condenação pública. As rádios deixaram de passar as suas canções, os seus discos foram retirados do catálogo, as salas fecharam-lhe as portas e os jornais, depois de fazerem a sua condenação, ignoraram-no. Wilson Simonal foi um caso, provavelmente, único na história da música popular, em que um artista foi quase completamente apagado da história. A sua ligação aos serviços de informação nunca foi efectivamente provada.

domingo, 13 de julho de 2008

There ought to be a law against you comin' around.

Fui ver o Bob Dylan. Ontem à noite. Nunca quis ir e nunca pensei que valesse a pena gastar 50€ para o ver em 2008. Mas na véspera disseram-me que tinham bilhete para mim e acabei por ir. Sem expectativas elevadas. Não tenho dúvidas que em 2008 o Bob Dylan da década de 60, sozinho na guitarra ou com a banda eléctrica, seria ainda uma das maiores coisas do mundo. Até ao Blonde on Blonde tudo o que fez é eterno. Fresco, irreverente e genial, sobretudo depois da electricidade ter chegado na trilogia Bringing it All Back Home, Highway 61 Revisited e Blonde on Blonde. Cheguei um pouco atrasado e devo ter perdido uma ou duas canções mas mal cheguei, percebi logo que as minhas baixas expectativas eram justificadas. Estava uma banda de baile a tocar competentes mas irrelevantes versões casamenteiras das canções do Bob Dylan. Desolation Row, Highway 61 Revisited, Tangled Up in Blue, Don't Think Twice It's Alright. Tudo tocado sem a chama, sem a intensidade das canções originais. Tudo sempre no mesmo ritmo pachorrento sem sobressaltos que quase poderia ter unido as canções num medley com a duração do concerto. Nunca pensei que o próprio Dylan permitisse que as suas canções fossem apresentadas assim, em versões tão irrelevantes cheias de apontamentos deslocados e pindéricos a cada vez que um dos seus músicos tinha direito a um solo. Salvou-se Ballad of a Thin Man, que mesmo sem brilhantismo foi apresentada dignamente. Contudo havia muita gente contente (mesmo nos jornais de hoje as críticas iam desde o ‘muito bom’ ao ‘sóbrio’). Aduladores do mito, este ou outro, conquistados à partida ou ainda antes. Já podem dizer que viram o Dylan ao vivo. Já podem dormir descansados. Viva o rei, que ele já pode morrer. Eu cá não tive sorte. Fui ver o Bob Dylan mas não o encontrei. Quando eu nasci se calhar já era tarde. Eu nunca vi o Bob Dylan.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Homens no estrangeiro de tudo.

Se pudesse escolher ser outra pessoa, acho que queria ser o Humphrey Bogart. Não queria ser o Carry Grant, o James Steweart, o Paul Newman nem o Marlon Brando. Queria ser um solitário irresistível, de um romantismo toldado pelo ar duro. Queria ter um charme seco, quase rude. Moral e ética muito próprias e a independência que faz dum homem estrangeiro onde quer que esteja. Queria ser tão cínico como corajoso e ter a melhor resposta sempre pronta. E, claro, contracenar com a Lauren Bacall. Dei comigo deitado no sofá à uma da manhã - televisão ligada, preto e branco e Hong Kong Blues. Um pouco antes tinha adormecido a ver To Have and Have Not que passava no segundo canal. Não faz mal, já tinha visto antes. Revii pelo prazer do jogo, do desafio constante entre Bogart e Bacall. Há nesta história um terceiro personagem que me interessa. Um pianista. Um pianista que também é pianista e personagem secundário num filme de Michael Curtiz, The Young Man With The Horn, também com Lauren Bacall. Este pianista, personagem secundário interessa-me. Hoagy Carmichael não é Bogart, mas também é, à sua maneira, um solitário. Não se deixa tocar demasiado pelas coisas. Toca e Lauren Bacall canta. Está apaixonado por ela na mesma medida em que todos estamos. É tão bela como misteriosa e, ainda assim, aparentemente frágil e carente. Mas ele sabe que o objecto do desejo daquela mulher é outro homem embora saiba, também, que tem dela a sua consideração e a simpatia. E sabe-o tão bem desde o primeiro momento que a desilusão é tranquila e quase não se sente. Ele sabe que a maneira de lidar com isso é continuar. Deixar que a vida passe.

Nem todos podem ser o Humphrey Bogart. Eu, pelo menos, não posso. Mas aspiro a ser como este pianista e estóico personagem secundário. Ele também contracena com Lauren Bacall, de uma maneira diferente. Toca e canta os Hong Kong Blues por ele e por ela, porque estão os dois muito longe do sítio onde poderiam chamar casa. Mas ele sabe que ela há-de encontrar o caminho para casa, enquanto ele continuará no estrangeiro de tudo, como Bogart, e que apenas toca para que a vida passe. E ela passa.

That's why he says I need someone to love me 
Need somebody to carry me home to San Francisco 
And bury my body there 
I need someone to lend me a fifty-dollar bill and then 
I'll leave Hong Kong far behind me 
For happiness once again 

Hong Kong Blues - Hoagy Carmichael