terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Vão para o caralho vocês e os vossos tamborzinhos.




Francisco Lopes, por ventura uma das únicas pessoas praticamente incógnitas depois de terem ido à televisão, resolveu dar-se a conhecer na Rua Morais Soares. Há que louvar o esforço e até congratular o mérito. Reunindo qualquer coisa como uma vintena de militantes (e algumas viaturas) com disponibilidade, alguns com dotes para a música ou simplesmente com vontade de dar uso às cordas vocais, desceram a rua animadamente, com algum alvoroço. Sabe quem conhece, que uma acção de rua deste género, nesta rua particular, podia ter corrido mal, podia ter sido um absoluto fracasso, uma vez que o bulício quotidiano das seis da tarde podia ter engolido estes cidadãos empenhados e socialmente comprometidos. Mas não, a caravana irrompeu na vida da Morais Soares, colocando-se num patamar acima dos acontecimentos quotidianos. No ruído, no movimento, no caos. Os camaradas (chamemos-lhes assim para não dizer partidários) lograram esse feito só ao alcance de obstinados militantes de um partido que se mantém firme nas suas convicções, como por exemplo, de que não existe nada de errado com a democracia da Coreia do Norte. Só estas louváveis qualidades levaram a que as carrinhas do partido, pagas pelos contribuintes, dificultasse a vida dos contribuintes mais do que noutro dia qualquer. Só estas qualidades fizeram que os transeuntes, que normalmente se amontoam e se atropelam pelos estreitos passeios de calçada portuguesa transitassem pelas bem mais largas e recentemente asfaltadas faixas de rodagem, dado o ritmo pachorrento com que os camaradas desciam a rua. Vi buzinadelas, vi insultos, vi gente à janela. Parece-me que o objectivo foi cumprido e a reacção bastante animadora.
Analisar o facto de que na era dos media, seja lá o que isso for, um partido político consiga ter mais impacto numa arruada do que em meia dúzia de aparições em debates e entrevistas na televisão excede as minhas capacidades de comentador. Suspeito que isso seja meio desadequado para uma campanha em 2011, mas isso sou eu dizer.
Compreendo que o conteúdo de interesse que se pode apresentar na televisão é confrangedoramente pouco. Contudo, uma arruada na Morais Soares às seis da tarde com uma banda improvisada com uns sopros e uns bombos a tocar a mesma melodia ao longo da rua toda em ritmo animadote também não apresenta grande conteúdo político e ideológico e isso. Digo eu.
Claro que estou mal disposto. É que esta brincadeira, à conta da ideologia, das convicções, das presidenciais e do caralho, do erário público e de muito, mas mesmo muito mau gosto, despertou-me da sesta.
O comunismo popularucho dos djambés, dos freaks, dos idealistas e reformados é patético e mete nojo. Onde está a temível máquina de propaganda e o irresistível projecto estético de sedução para uma ideologia? Preferia.
Também preferia as janeiras, se bem que isso é demasiado católico para os camaradas.
Agora isto
é que
não!

Vão para o caralho vocês e os vossos tamborzinhos.



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