domingo, 9 de dezembro de 2007




















Até aos quatro anos, quando ainda morava em Sintra, eu ia frequentemente a Lisboa com a minha mãe. Apanhávamos o comboio na estação antiga e íamos até à estação do Rossio. Tenho estas visitas à capital muito presentes na minha memória. As viagens de comboio, de metro, as ruas da Baixa, o movimento, os carros, os semáforos, os edifícios imponentes e bonitos. Ficava maravilhado com tudo. Achava tudo extraordinariamente bonito. E embora não saíssemos muito ali da zona da baixa - mesmo que saíssemos eu não tinha uma noção de espaço suficiente para ter uma ideia precisa das distâncias – eu achava que Lisboa devia ser a maior cidade do mundo. Admito que a própria ideia de mundo não fosse muito precisa nesse tempo, mas Lisboa, na minha cabeça, tinha que ser a maior coisa já feita pelos homens.

Essas visitas deviam-se aos meus pés. Eram tortos. E precisavam de correcção, acompanhamento e botas ortopédicas. O médico onde ia, que era pequeno e velho, tinha um consultório no final da Avenida da Liberdade, já na Praça dos Restauradores. Lembro-me muito bem disso. Tinha um aparelho de vidro, com uma luz e um espelho, para onde eu subia, e onde ele me observava os pés. Não sei o que via, mas estavam sempre tortos, e continuaram tortos até muito tempo depois de parar com essas consultas e de deixar de usar botas ortopédicas. Mas a memória mais incrível que tenho dessas consultas era ficar à janela da sala de espera, de joelhos na cadeira a olhar a praça. Fascinava-me todo o movimento, os semáforos, aquela ordem estranha com que as coisas aconteciam. Olhava os edifícios: o Teatro Éden e o Palácio Foz, que nessa altura não tinham nome, não eram palácios nem teatros. Eram apenas parte daquela cidade onde tudo era grande, belo e novo. Até aos quatro anos, no final da Avenida da Liberdade.

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